04/10/2013

Conheça 4 casos de pessoas que fizeram cirurgia em si mesmas

Em um artigo especializado de 1936, os médicos americanos John G. Frost e Chester C. Guy classificam em quatro as pessoas que operaram a si próprias: médicos; aqueles que passavam por extrema dor ou emergência sem a possibilidade de recorrer a um serviço de saúde; pacientes psiquiátricos; ignorantes.

1- O homem de ferro soviético O navio Ob deixou Leningrado em 5 de novembro de 1960 em direção à Antártica com a missão de construir uma nova base no continente gelado. Foram 36 dias no mar e mais nove semanas de construção até que a base ficou pronta, em 18 de fevereiro de 1961.

O inverno antártico já estava caindo quando o navio voltou à União Soviética, deixando para trás 12 residentes que ficariam no local durante um ano para estudar a região. Entre os membros da expedição, um médico: Leonid Rogozov.

Em 29 de abril de 1961, o cirurgião de 27 anos escreveu em seu diário que se sentia doente, com náuseas, fraqueza, mal-estar e, por fim, dor no abdome. Rogozov notou que estava com apendicite.

Os dias passavam e, fora da base, o clima só piorava. Dias viraram noites, tempestades de neve eram constantes. Era impossível um avião pousar. Enquanto isso, o médico usava antibióticos e colocava gelo no local da dor. Sem sucesso. Só havia um caminho: a cirurgia. E Rogozov era o único cirurgião no local.

Dois cientistas esterilizaram a sala e os equipamentos. Os móveis foram retirados, com exceção de uma cama, duas mesas e uma lâmpada.

Rogozov selecionou o meteorologista Alexandr Artemev, o mecânico Zinovy Teplinsky e o diretor da estação, Vladislav Gerbovich, para participar do procedimento. Ele os treinou para a cirurgia, deixando uma seringa preparada para reanimá-lo caso desmaiasse durante a operação.

Rogozov então preparou a cama. Ele escolheu uma posição reclinada, com a cama elevada a um ângulo de 30°. O cirurgião escolheu não usar luvas, pois previu que o tato seria necessário para sentir o próprio corpo anestesiado.

Às 2h15 da madrugada de 1º de maio de 1961, Leonid Rogozov fez um corte de aproximadamente 10 cm no próprio abdome. A visibilidade não era considerada ideal e ele tinha, às vezes, que levantar a própria cabeça ou usar um espelho para ver o apêndice. Após 30 minutos, ele começou a sentir vertigem. Então, após aproximadamente 40 minutos, ele retirou o apêndice infeccionado e aplicou antibióticos no local. A cirurgia toda durou cerca de uma hora e 45 minutos.

Gerbovich escreveu no seu diário que, "quando Rogozov fez a incisão e estava manipulando as próprias entranhas, assim como quando ele removeu o apêndice, seu intestino gorgolejou. (...) Deu vontade de se afastar, fugir, não olhar. Mas eu mantive minha cabeça firme e fiquei. Artemev e Teplinsky também ficaram nos seus lugares. (...) O próprio Rogozov estava calmo e focado no trabalho, mas o suor escorria pelo seu rosto."

Em seu diário, Rogozov também comentou a cirurgia: "Eu não me permiti pensar em outra coisa senão na tarefa em minhas mãos. Foi necessário me transformar em aço. (...) Finalmente, aqui está, o apêndice amaldiçoado! Com horror eu observo a mancha escura em sua base. Isso significa que apenas um dia a mais e iria estourar e... No pior momento da remoção do apêndice eu notei: meu coração deu um pulo e visivelmente diminuiu; senti minhas mãos como borracha. Bem, pensei, isso vai acabar mal."

O que aconteceu após a operação? Rogozov morreu... quase 40 anos depois, em 21 de setembro de 2000. O homem de ferro soviético deixou a estação de Novolazarevskaya mais de um ano depois de retirar o próprio apêndice, em 29 de maio de 1962. O relato sobre o caso, inclusive com trechos dos diários dos envolvidos, foi feito pelo filho do cirurgião, Vladislav Rogozov, professor de medicina da Universidade de Sheffield (Reino Unido), e Neil Bermel, professor de estudos russos na mesma universidade, no jornal especializado BMJ (British Medical Journal).

2- O defensor da anestesia Em 1921, o éter era utilizado largamente como anestésico pelos médicos. Contudo, o doutor Evan O"Neill Kane acreditava que outras substâncias menos danosas ao corpo humano deveriam ser preferidas para anestesias locais.

Ele acreditava tanto no avanço dessa área da medicina que decidiu provar através de uma operação - e a oportunidade apareceu, quando o próprio Kane teve apendicite.

A operação seria uma simples apendicectomia (retirada do apêndice), algo trivial para qualquer hospital. Mas a decisão do cirurgião-chefe do hospital Kane Summit, na Pensilvânia (Estados Unidos), de operar a si mesmo tornou o procedimento nada simples.

Kane tinha 60 anos na época. Ele preparou a mesa de cirurgia com um espelho apontado para o próprio abdome. Outros três médicos estavam preparados para o caso de algum problema, além de uma equipe de enfermeiras para auxiliá-lo.

O procedimento foi muito rápido. Kane era um cirurgião experiente e não demorou entre abrir a própria barriga (nos anos 1920, o corte era bem maior dos as cirurgias minimamente invasivas atuais), localizar o apêndice inflamado e retirar o problema. Assistentes cuidaram do restante do procedimento. Kane já havia provado o que queria.

Segundo o hospital (que hoje se chama Kane Community Hospital), não há registros fotográficos da operação realizada em 1921. A imagem ao lado é de outro procedimento, também realizado pelo cirurgião em si mesmo, mas, dessa vez, ainda mais arriscado.

O sucesso da primeira autocirurgia levou Kane a se operar em outros momentos. Ele ainda chegou a amputar um de seus dedos. Em 1932, então com 70 anos, ele corrigiu uma hérnia inguinal que o acometia desde uma queda de cavalo em 1926 - a mais perigosa das três operações devido à proximidade da artéria femoral. Mas o cirurgião realizou a cirurgia, que durou uma hora e 55 minutos, acompanhado de outro médico e por um time de enfermeiras.

Segundo o hospital, ele até brincou com as enfermeiras durante o procedimento. O doutor que acompanhou Kane declarou a cirurgia um sucesso. Trinta e seis horas depois de se auto-operar, o médico estava de volta à mesa de cirurgias - mas já não era o próprio paciente.


3- O homem com morte no nome Hoje em dia, o tratamento de cálculo vesical (pedra na bexiga) está bem avançado. Os médicos conseguem usar até laser para transformar as pedras em um material menor, o que evita muitas cirurgias. Mas há alguns séculos, os relatos indicam que o problema era responsável por uma dor insuportável. Sir Robert Walpole, que foi primeiro-ministro inglês no século XVIII, foi um dos casos mais conhecidos da doença. Ele descrevia a dor como se estivesse sendo "rasgado em pedaços".

Pois foi essa dor que levou o holandês Jan de Doot a decidir cortar a própria pele e arrancar com suas mãos um cálculo vesical - algo insano nos dias de hoje -, caso descrito pelo também holandês Nicolaes Tulp.

No seu retrato mais famoso, Doot aparece segurando um objeto grande como um ovo. Era a pedra que o incomodava.

Segundo o médico Leonard Murphy, do hospital Queen Victoria Memorial, em Melbourne, na Austrália, autor de um artigo sobre o tema no British Journal of Urology, Doot era um ferreiro em Amsterdã. Ele já havia passado por duas cirurgias para retirada de cálculos vesicais.

Em 5 de abril de 1651, a dor de outra pedra o levou a se decidir por retirar o problema com as próprias mãos. Ele mandou a mulher para o mercado de peixe com medo de que ela interrompesse. Seu único assistente era o irmão.

Jan usou a mão esquerda para estabilizar o cálculo e, com a direita, fez uma incisão logo acima do órgão. Ele colocou a mão direita e tirou uma pedra do tamanho de um ovo, com 110 g. O relato de Tulp indica que Doot deixou o cálculo cair no chão. Ele, então, suturou a incisão.

Segundo Murphy, apesar de Tulp descrever o cálculo como estando na bexiga, seria humanamente impossível Doot ter força suficiente para retirar a pedra do órgão apenas com a força da mão, sem ajuda de um afastador ou outro equipamento. Isso indica que a pedra certamente estava nos tecidos superiores. Apesar da imprecisão dos relatos, o que se sabe é que a operação foi um sucesso.

Aparentemente, Jan de Doot ganhou fama pelo sucesso da loucura que cometeu. Além de entrar para a história da medicina, ele foi retratado pelo pintor Carel van Savoyen. O cálculo, a faca e a pintura estão até hoje expostos na Universidade de Leiden, na Holanda.

O holandês inclusive lançou um folheto para comemorar seu feito. O material foi reproduzido em um jornal holandês da época (O Observador Cristão) e continha inclusive um poema, que fazia um trocadilho com o nome Doot e a palavra holandesa dood ("morte"). Veja o poema, em tradução livre:

O que surpreendeu o país inteiro
Sobre esta mão afortunada?
Ela realizou um raro feito,
Ajudada pela orientação de Deus
Quando, em mortal necessidade,
Ela restaurou vida a de DOOT.


4- Emergência no inverno polar   O caso da médica americana Jerri Nielsen FitzGerald era muito parecido com o de Rogozov. Os dois estavam em uma estação de pesquisas no Polo Sul quando precisaram de uma intervenção médica urgente. Mas há duas diferenças fundamentais. A primeira foi a época: Jerri esteve na Antártida quase 40 anos depois, em 1999. A segunda foi a gravidade da doença: enquanto o soviético teve uma apendicite, a norte-americana teve um câncer maligno.

Jerri havia se separado e perdido a guarda dos três filhos quando viajou para o continente gelado. Os meses em que ficaria isolada com a equipe foram encarados por ela positivamente e ela diz que fez da estação seu lar. "Eu fui muito feliz lá".

Segundo relatos do jornal Los Angeles Times e da TV CBC, o último voo de saída antes do inverno na Antártida partiu semanas antes de Jerri sentir um caroço no seio. Não havia como deixar a estação de pesquisa e, dentre os 40 membros do local, somente um era médico: a própria paciente. Jerri chegou à conclusão de que precisava realizar uma biópsia. A americana treinou um time de homens, que incluía um carpinteiro e um mecânico.

Jerri usou gelo e um anestésico local e fez uma incisão no próprio seio. Com auxílio dos membros selecionados, a médica realizou a própria biópsia e mostrou por vídeo para um grupo de especialistas que estava nos Estados Unidos. Contudo, o grupo de médicos achou que o procedimento foi inconclusivo. Apesar do resultado, a americana saudou o empenho da equipe e dela mesma. "Eu treinei aquelas pessoas, e elas foram ótimas", disse em uma entrevista à TV em 2002.

Os médicos que monitoravam o estado de saúde dela à distância chegaram à conclusão de que a médica precisava de quimioterapia. Em julho, em meio ao escuro e congelante inverno antártico, um avião entregou por paraquedas um equipamento de quimioterapia de última geração na estação, sem poder pousar por causa das condições do tempo.
Apesar dos esforços, o tumor estava aumentando. Em setembro, os médicos alertaram que Jerri precisava deixar a estação com urgência para ser tratada em um hospital.

Em 16 de outubro de 1999, a Guarda Nacional americana conduziu uma perigosa missão de evacuação que resgatou Jerri e deixou outro médico para os membros da estação.

A médica passou por múltiplas cirurgias e uma mastectomia - o câncer começou a entrar em remissão. Jerri ganhou a batalha, mas a doença voltaria a atacar. Em 2009, 10 anos depois de abrir o próprio seio, a americana morreu vítima da doença.

Antes, ela lançou um livro de sucesso (Ice Bound) que inspirou um filme de mesmo nome (Coragem no Gelo, no Brasil) e viajou o mundo para contar sua história.



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